7 de dezembro de 2022

Mercado do Trabalho

 

Volvidos quase 25 anos sobre a minha licenciatura em Direito, sinto que, tal como para o sol e para a morte, é um pouco difícil olhar de frente.

Tomei a decisão aos 17 anos, sem qualquer paixão ou ambição especial (assumo), mas movida pela convicção de que o Direito, em alinhamento com as minhas características intelectuais e emocionais, seria a área na qual, com genuíno empenho, poderia ser útil na sociedade, acreditando ainda, que daí adviria, naturalmente, alguma realização.

Nada e mais ninguém pesou em tamanha decisão que marcou o que tem sido o resto da minha vida!

Não conhecia o dito mundo do Direito, não tinha consanguinidade na área, ao ponto de nunca ter entrado em qualquer foro, o que veio a acontecer apenas no 3.º ano do curso. Este detalhe pode parecer irrelevante, contudo num apelo fácil àquelas memórias imemoráveis, destaco a penosa adaptação à faculdade, mormente à metodologia quase escolástica então vigente, na qual muito bem se percecionava quem tinha nascido perto de toga, beca ou quaisquer outros trajes e insígnias académicas. Era apenas o princípio.

Com direção assistida, por persistência e audácia, era preciso seguir a rota, cumprir o escopo curricular, concluir o propósito e entrar no mercado de trabalho. Tudo foi cumprido, não sendo exagero dizer que a “ferro e fogo” e, após quase 25 anos, cá estamos, simplesmente. Com experiência, com mais conhecimento, facto que assumo com realismo, sem vaidade e, claro, com mais habilitações. E isso realmente importa? Podia ser realmente esta a questão a mover a minha pena que se assume na forma digital. Mas não é.    

Esta breve reflexão decorre, na verdade, de uma partilha que encontrei no Linkedin, na qual uma jovem, recém-formada (com mestrado integrado), procura desesperadamente uma entidade para realização de um estágio profissional, conditio sine qua non para o exercício da profissão que “abraçou” e na qual a própria e a família tanto investiram. Passei os olhos pelos comentários que se seguiram ao apelo e, a ante a inverosimilhança dos mesmos, foi impossível ficar indiferente.

Eis um ensaio do que diria à Maria (nome fictício), com todo o lastro que me acompanha, se lugar existisse para a honestidade, esse lugar solitário, em que o clamor, não raras vezes, é suicida:  

Cara Maria,

Muito admiro a sua coragem, assumindo publicamente que precisa de ajuda, pois não conhece ninguém que lhe abra simplesmente a porta ou que por si interceda num lugar “ao sol” ou sequer perto dele. 

Não sei se este é o sítio certo, mas compreendo que é preciso começar por algum lado e, nos tempos que correm, este até parece ser.

Quero desejar-lhe “boa sorte”, acredito que vai conseguir, demonstra muita vontade e querer é poder (mesmo quando nos querem fazer acreditar que assim não é), mas, por paradoxal que pareça, se tudo correr bem, depressa vai entender o que é “sorte” neste mercado.

A “sorte” pode assumir muitas formas, mas raramente é uma modalidade de fortuna ou azar e nem sequer afim, embora assuma tal aparência e pressuponha igualmente jogo, muito jogo. Demasiado mesmo. 

Como num baile de máscaras, desfilam figuras sustentadas em competências muito suaves, concebidas por eminências iminentemente pardas. E duram, duram. São inesgotáveis, mas esgotam aqueles de quem se alimentam ávida e sofregamente.  

Resumidamente, o que lhe vão sugerir (pois já não se pede nada), com caráter sistemático, é resiliência. Imensa resiliência. 

Assim se vive na sociedade das “bolhas”, na qual cada classe vive num permanente exercício narcísico, e, pasme-se, fazendo questão de ignorar as outras, porque o capital humano é uma espécie de enfermidade nas organizações. É intrinsecamente maldito e essencial, inexplicavelmente, ou talvez não.

Há 25 anos não era mais fácil, acredite. O caminho continua a fazer-se, por camadas, com balanços, paciência e, claro, resiliência.

 Aprende-se, com o decurso dos anos, que passam cada vez mais depressa, talvez porque a translação e a rotação estejam a sofrer de ansiedade, que o sol efetivamente quando nasce, nasce para todos, mas, como li outro dia, “nem todos se podem bronzear”. 

Assim, na pior das hipóteses, se tudo correr bem, vai entender tudo isto.  E, se tiver a chance de se bronzear, em nada contraria o que aqui fica escrito. 

Os dados estão apenas lançados, que começe o jogo!

PS: Nunca esqueci os tria praecepta iuris dos romanos: honeste vivere; alterum non laedere; e suum cuique tribuere, o que, parecendo que não, onera o caminho. 

Mercado do Trabalho

  Volvidos quase 25 anos sobre a minha licenciatura em Direito, sinto que, tal como para o sol e para a morte, é um pouco difícil olhar de f...